sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A catarse de Drummond

“No mar estava escrita uma cidade.”

Carlos Drummond de Andrade

A frase epigrafada acima está lapidada no banco onde está talhado Carlos Drummond de Andrade, no calçadão de Copacabana. Deixa bem clara a cumplicidade poética entre o mar e a princesinha, sob a tinta do nosso poeta maior. Existem cidades, mundo afora, que gostariam de ter as curvas anatômicas que o Rio de Janeiro perfila em suas montanhas, praias... garotas. Recentemente a própria UNESCO concedeu-lhe o merecido prêmio de patrimônio cultural da humanidade: foi a catarse drummondiana.

Em algumas cidades encantadoras, deparo-me com fartas questões: Paris é bela, mas não tem mar; Londres é bela, mas não tem mar; Praga é bela, mas não tem mar. Têm respectivamente no Sena, Tâmisa e Vltava, rios que as adornam com curvas sensuais, mas que servem apenas de alegoria ao homem, arquiteto de cidades. Há quem ache esses rios formosos. Não acho, eu. Tenho pra mim que são rios mortos, e não guardo boa relação com defuntos. Tenho em mim, mesmo, rios vivos onde fui criado me asseando e jogando anzol para ouvir a pulsação da água. Tanto é que moro defronte ao Guajará, que todo dia enxágua minha janela de sentimento e me banha em poesia.

Madrid é bela, mas não tem rio. Moscou se limita ao um córrego que chamam de rio; São Paulo nem se fala. Buenos Aires tem um porto totalmente descaracterizado da natureza, apesar de belo. Regozijo o Tejo, esse sim. O rio da aldeia de Fernando Pessoa corre na minha veia e desemboca no coração atlântico de todos nós. Talvez seja esse o motivo de permanecermos umbilicados a Lisboa.

Mas rio - que é rio mesmo - é o Amazonas, com todo respeito aos Nilo e São Francisco. No Amazonas conheço uma cidade, Macapá, mas que não teve arquiteto. Em que pese o descuido da população e dos governantes, a cidade olha para o Amazonas numa relação linear, a formar ângulo de 45 graus com o sol equinocial, 90 com a linha do equador, 180 com o rio-mar e 360 com a poesia. Isso basta. É relação visceral e estrondosa, em forma de pororoca, auscultada no pulmão dos artistas de suas ribeiras: “O nosso rio, esse ano, despencou no varjão. Onda quebrou, onda bateu, onda derrubou toda maromba. Engoliu a plantação”, vocifera Ruy Barata em "Macaréu". No fado plangente do mundo, Chico Buarque e Ruy Guerra declamam: “e o rio Amazonas, que corre trás-os-montes e numa pororoca deságua no Tejo”.

Mas falta a Macapá o marco que ensandeça as ribeiras desse rio, por isso, ulula nas minhas ideias um épico seqüestro: desarraigar aquele Drummond de Copacabana - com ou sem os óculos-, embarcar a peça num Ita e fincá-la ao pegado da Fortaleza de São José sem esquecer aquela poesia. Traria o poema numa algibeira e mudaria seu dizer, ao hibridizar com o jeito tucuju de cantarolar: “nesta cidade está escrito um rio de alma e cor brasileira”.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ALUNO REPROVADO.



Carlos Newton
Foi uma aula de direito às avessas. Todo enrolado, sem saber o que dizer, fazendo pausas intermináveis, o ministro Dias Toffoli deu um voto destinado a ficar na História, mas às avessas, para que os alunos de Direito assistam diversas vezes e aprendam como não se deve proceder ao ocupar uma caderia na mais alta Corte de Justiça.
Toffoli, a ignorância envaidecida.
Ficou mal para ele e pior ainda para quem o conduziu até essa investidura. Sua nomeação para o Supremo mostra que, em seu permanente delírio de grandeza, Lula acabou perdendo a noção das coisas. Foi o primeiro operário a chegar à presidência da República de um país realmente importante, tornou-se uma importante personalidade mundial, mas o sucesso lhe subiu à cabeça, começou a fazer bobagens, uma após a outra.
Lula poderia ficar na História como um dos mais destacados líderes da Humanidade, mas não tem a humildade de um Nelson Mandela nem o brilho de um Martin Luther King. Suas tiradas acabam soando em falso e os erros cometidos vão se avolumando.
Dias Toffoli foi um dos maiores equívocos cometidos pelo então presidente, que sempre se orgulhou de jamais ter lido um só livro. Desprezando o sábio preceito constitucional que exige notório saber jurídico, Lula nomeou para o Supremo um advogado de poucos livros, que por duas vezes já tinha sido reprovado em concursos para juiz.
O resultado se viu no julgamento de segunda-feira. Todo atrapalhado, Toffoli não sabia quando estava lendo alguma citação ou falando por si próprio. O mau estar no plenário foi num crescendo. Os outros ministros já não aguentavam mais tamanha incompetência. Toffoli não se comportava como um magistrado, que necessariamente tem de examinar os argumentos de ambas as partes. Limitava-se a citar as razões dos advogados de defesa dos réus, sem abordar nenhuma das justificativas da Procuradoria Geral da República ou do Relator.
Ainda não satisfeito com essas demonstrações de inaptidão e de parcialidade, Dias Toffoli resolveu inovar. De repente, para justificar seu papel grotesco, proclamou que a defesa não precisa provar nada, quem tem de apresentar provas é a acusação. Fez essa afirmação absurda e olhou em volta, para os demais ministros, cheio de orgulho, como se tivesse descoberto a pólvora em versão jurídica.
Os demais ministros se entreolharam, estupefactos, e Luiz Fux não se conteve. Pediu a palavra e interpelou Toffoli, que repetiu a burrice, dizendo que não cabe à defesa apresentar provas, isso é problema da acusação.
Infelizmente, a TV não mostrou a risada de Fux, considerado um dos maiores especialistas em Processo Civil, um professor emérito e realmente de notório saber.
Até os contínuos do Supremo sabem que as provas devem ser apresentadas tanto pela defesa quanto pela acusação, mas na faculdade Toffoli não conseguiu aprender nem mesmo esta simples lição. É um rábula fantasiado de ministro, uma figura patética.

Uma criança que aprende o respeito e a honra dentro de casa e recebe o exemplo vindo de seus pais, torna-se um adulto comprometido em todos os aspectos, inclusive em respeitar o planeta onde vive..."


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Tomara que Marcos Valério conte o que sabe.

Do blog de Augusto Nunes

Não há esperança de salvação para Marcos Valério: condenado por corrupção ativa até por Ricardo Lewandowski, o diretor-executivo da quadrilha do mensalão já deve ter compreendido que foi escolhido para escalar o cadafalso com o apoio dos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal. Para os brasileiros decentes, essa unanimidade seria a materialização de um sonho. Para os quadrilheiros e seus comparsas, tal goleada pode transformar-se na anunciação do pesadelo: e se o vigarista que se fantasiava de publicitário resolver abrir o bico?
Ele sabe muito mais do que descobriram a CPI dos Correios, a Polícia Federal, o Ministério Público e a imprensa. Tem mais segredos a revelar do que qualquer outro comparsa. Completou sete anos de mudez por acreditar que só o silêncio poderia livrá-lo da ruína financeira e da gaiola. Como segue desfrutando da vida de ricaço, pode-se deduzir que a primeira parte do acerto foi cumprida. A segunda começou a ser revogada no momento em que Lewandowski o condenou pelas bandidagens promovidas em parceria com Henrique Pizzolato.
A ruptura do acordo autorizará Marcos Valério a negociar em outras frentes a preservação do direito de ir e vir, sempre usando como moeda de troca informações de altíssima periculosidade. As revelações de Roberto Jefferson abalaram as fundações do governo Lula e puseram abaixo o templo das vestais que camuflava o bordel das messalinas do PT. O teor explosivo das histórias que Valério tem para contar é infinitamente maior.
Depois da primeira prisão preventiva, ele avisou mais de uma vez que, se fosse abandonado no barco a caminho do naufrágio, afundaria atirando ─ e tinha balas na agulha tanto para mensaleiros juramentados quanto para Lula. Na quarta-feira, com um recado em código, o advogado Marcelo Leonardo reiterou as ameaças do cliente: “Quero ver o que o tribunal vai decidir sobre os políticos”, disse Leonardo depois da condenação de Valério pelas maracutaias envolvendo o Banco do Brasil. O primeiro político foi inocentado no dia seguinte.
Tomara que Valério reaja ao risco do naufrágio solitário com o cumprimento da promessa. Tomara que conte tudo, do mensalão mineiro à roubalheira imensa descoberta em 2005. Tomara que não poupe nenhuma das figuras com as quais contracenou, de Eduardo Azeredo a José Dirceu, de Clésio Andrade a Lula. O tumor da corrupção impune assumiu dimensões tão perturbadoras que talvez só possa ser lancetado por um corrupto de grosso calibre. Alguém como Marcos Valério.

OS SETE PECADOS SOCIAIS.

Política sem princípios
Riqueza sem trabalho
Comércio sem moralidade
Ciência sem humanidade
Colaboração sem sacrifício
Prazer sem consciência
Conhecimento sem caráter
Mahatma Gandhi